
a fantasia é o ponto possível da realidade e um poeta não se perde por vender impossíveis.
morde-se pela carne adentro e finge-se a sabedoria do esterco na pocilga dos impróprios. vómitos decompostos em areia seca.
são horas de fechar o amor a sete chaves e tirar da gaveta a tesoura do grito. são horas de fugir das palavras. deixá-las a secar no inferno da memória e prostituir a mentira.
amarmo-nos uns aos outros.
amai-vos uns aos outros. dizia o outro que não sabia nada de resultados.
o suicídio da sede transpira pálidas línguas desprevenidamente naturais.
são horas de arrancar o amor do tempo e atirá-lo para a estratosfera do absurdo e queimá-lo vivo enquanto há esperança. enquanto há alguma tragédia na lágrima.
são horas de trair a música e enchê-la de bocas e de perfis e de linhas e de pesadelos, foda-se. de pesadelos que me insultam a inteligência e me rebentam a pele do estômago. são horas, foda-se. são horas. são horas. são horas de tranquilizar o medo e dizer eu quero. mesmo que não seja eu o que o amor fizer do silêncio. eu quero, foda-se.
e a caneta rasga a tinta da minha mão. e a folha rebenta a inutilidade de eu querer qualquer coisa com alma e com memória e com frio. EU QUERO ENREGELAR DE MEDO.
não. não quero saber do soco no sonho. só quero inventar perfis e insultar o universo.
eu sou um ponto na regra dos deuses.
eu sou o aspecto na diagonal do gesto.
eu sou a desolação a sufocar de comédias.
eu sou a arte nua a inventar o enredo.
é trágico nascer com marcas na língua.
[ o lábio inferior projecta a obra. perfeita fraqueza a da boca.]
