sábado, março 21, 2009







Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício


(…) Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor


E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.



Mário Cesariny






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14 comentários:

pinky disse...

entre nós há uma grande amizade e carinho
entre nós há muito respeito e admiração
grandes beijos e um grande obrigado pela força, gosto muito muito de ti!

Frioleiras disse...

a tua escolha no dia mundial da poesia.......

a minha, foste tu e o eugénio de andrade.........

... gostos... "com todas as consequencias" como diz o Cesariny ..

Vasco disse...

"o nosso dever falar"
o nosso dever amar(-te)
o nosso dever lembrar

Um grande beijo, amiga, companheira, camarada!

intruso disse...

Feliz Dia da Poesia...

:)

entre as palavras e as palavras... há sempre um 'nós'.


beijo

heretico disse...

falemos. pois...
excelente escolha...
beijos

cassamia disse...

quantas horas me fizeste lembrar agora, tantas tão boas... tantas :)

Haddock disse...

e a poesia não se irrita com o "seu" dia??

[nós, por mais vaidosos, detestaríamos ter um que nos fosse dedicado!]

até as abstracções têm direito à própria intimidade, caramba!


quem, e com que direito, decide homenagear/lembrar - "tudo ao molhe" - as artes, os progenitores e os amores, a mulher, a criança, o doente, o pobre, as vocações,
as zonas húmidas, a meteorologia, a vítima, os bombeiros, o consumidor, a terra, a água... (etc.) ??

e quem é o/a senhor/a responsável pela banalização destes "festejos"??

se a poesia faz anos (facto que desconhecemos), então que seja ela a tomar a iniciativa de os comemorar convidando quem verdadeiramente gosta para um belo jantar!!


e assim cumprimos o nosso dever, evitando cesariny.

A. disse...

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre...Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará:
Aquele é que é feliz.

Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,

Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...


11-5-1928
Poesias de Álvaro de Campos







...saímos? sim. às vezes
temos de sair

*

alice disse...

o cesariny escreveu o poema entre os poemas, mas faltou-lhe um verso, que eu aqui acrescento :)

entre nós e as palavras, a apoplexia da ideia!

beijinho grande :)

Ana Paula disse...

É um poema com todas as letras maiúsculas!

Um beijo para ti, poesia também com alma :)

Graça Pires disse...

Lembrar Cesariny no dia da poesia é lindo. Entre nós e as palavras... Obrigada. Um beijo.

Arnaldo Macedo disse...

poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny

Tchi disse...

«Entre nós e as palavras» há laços e há nós. Há tanto. Existes tu. Ele. Ela. Nós. Nós. E os outros. Todos os outros.

«Com todas as consequências» do que haja entre nós livres e nós por desatar.

Lembro-te.

Abraço.

Lis disse...

Escolheste bem. Como sempre.