domingo, junho 07, 2009






o mundo invisível escorre água entre os dedos.
podia muito bem ser geométrico o contraste.










13 comentários:

A. disse...

...é a forma das coisas, Maria!





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Jornal Público
A forma das coisas
06.06.2009

Isolda, de Olga Roriz
4 Estrelas

À Flor da Pele, de Rui Lopes Graça
2 Estrelas

Fauno, de Vasco Wellenkamp
2 ½ Estrelas

Strokes through the tail, de Marguerite Donlon
1 Estrela

Quatro coreógrafos, Companhia Nacional de Bailado
3 de Junho, 21h, Teatro Camões
Meia sala
O programa francamente desigual proposto pela CNB não deixa margem para dúvidas. Há um abismo estético, intencional e discursivo entre Olga Roriz e os outros três coreógrafos, Rui Lopes Graça, Vasco Wellenkamp e Marguerite Donlon. Onde uns procuram fugir, com a coreografia, à partitura musical (Philip Glass, para Lopes Graça, Debussy, para Wellenkamp, Mozart, para Donlon), Olga Roriz faz de Wagner, e do seu Prelúdio e Morte de Tristão e Isolda, a matéria-prima para explorar não tanto o virtuosismo dos intérpretes (que nas outras peças vai do risível ao grotesco, que confundem velocidade com urgência e emoção com mímica) mas um espaço-tempo onde conflui um dramatismo que é explorado não pela estética mas pela forma.
Aquelas bailarinas, que efectivamente se esgotam na interpretação, estão a anos-luz dos intérpretes das outras três peças, presos a um formalismo coreográfico incoerente, modernaço quando devia ser de risco (sobretudo Wellenkamp que faz um Fauno revivalista e ambicioso sem nunca afirmar o que sustenta a intenção de recriar um mito da dança contemporânea). E a relação entre o tempo e a gestão de referências que em Lopes Graça e Donlon se transforma em bulimia, em Roriz é gerida com contenção e utilizada a favor de uma coreografia que, enquanto se desenvolve, se liberta das raízes e ganha uma identidade única.
A intrincada combinação entre música e movimento, agindo enquanto entidades complementares e nunca servis, permite isolar cada uma das intérpretes que, nunca cedendo na hierarquização, encontram um espaço identitário comum que partilham como se dele dependesse a sua existência. Esta liberdade na criação, capaz de gerir as treze bailarinas numa imensa massa vermelha e negra (fruto da lisura cénica, dos soberbos figurinos de Vera Castro e do contrastes entre luz e sombra de Orlando Worm) resiste à forma, ganha espaço autónomo num discurso eminentemente trágico e liberta-se de estrangulamentos temporais.
Não deixa, por isso, de ser paradoxal que tendo sido criada em 1991, ano de afirmação internacional da nova dança portuguesa, Isolda permaneça ainda como uma peça que, dezanove anos depois, permite perceber, em retrospectiva, não só o discurso singular de Olga Roriz - trabalhando o conteúdo e extravasando a forma, acumulando generosamente sentidos e direcções, movendo-se em territórios formais mas neles descobrindo relações inusitadas -, mas também, e sobretudo, a singularidade do desenho coreográfico que faz dos corpos femininos.
Na mesma voluptuosidade, no mesmo mergulho intenso na emoção, na mesma sensação de abandono das figuras femininas que já vinha do matricial solo Jardim de Inverno (1989, refeito em 2004), e se prolonga, por exemplo, em Os olhos de Gulay Cabbar (2000), mas também nas sequências dançadas só pelas mulheres em Pedro e Inês (2003) ou até mesmo dos esboços de personagens que criou para as intérpretes de Paraíso (2007), pode ver-se a força autoral de uma coreógrafa que não se limita a juntar barrocas paisagens visuais.

Tiago Bartolomeu Costa

Tchi disse...

Podia sim.

Podia pois.

Mas...



Beijinhos.

hn no índico disse...

sábia maria.... como sempre

Graça Pires disse...

A água que escorre entre os dedos faz contraste com a secura do olhar quando a lucidez torna geométricos os gestos...
Um beijo.
O meu mail: gracampires@hotmail.com

Frioleiras disse...

belíssima escolha............
Arvo Prat, a imagem e..........

as tuas palavras...


que não escorrem. Gravam..

Victor Oliveira Mateus disse...

Olá M.Q.!

A propósito de tango, lembrei-me
de uma conversa em tempos havida entre alguns poetas-bloggers...
A Graça ligou-me... eu não sei se no seu blogue os comentários saltam imediatamente para a "boca de cena". Vou fazer essa experiência agora: 1, 2, 3, experi-
ência!...
Um grande abraço

Ás de Copas disse...

Tudo o que é geométrico perde na falta de imprevistos...

casa de passe disse...

Meu Deus!
O que esta fotog. me faz lembrar!

o tempo em que os Anjos eram Deuses!

O tempo em que o João comprou, lá para a Casa, uma série de discos do Piazzola e do Carlos Gardel (lindo o tango "por una cabeza"...) , que faziam as delícias do Senhor Eduardo (empregado dos CTT no posto de S. Sebastião da Pedreira e que adorava "visitar" a Loulou, ao som do Piazzola, nas noites abssintosas de 6a. feira à noite, beberricando um calicezinho deposto pomposamente em cima duma prancheta sobre o veludo grenat da capa do sofá...)

Beijão !

Nini

isabel mendes ferreira disse...

Tu és o melhor dos contrastes!

insaciável e enunciadora de uma realidade de "presença" forte.

que nenhuma dança sistematiza.



beijo Pin.

heretico disse...

assim ondulante está bem. parece-me.

(cada um tem o mundo que merece)

beijo

Haddock disse...

muito "tintinnabull", dizem do arvo. [achámos sugestiva a conotação, ignorando embora a significância...]

e não é que só agora percebemos que a voz de "castrato" não é dele??


mas, olhando para o todo, mais do que contraste, condenar as duas jovens a dançar "este" tango só pode ser castigo!! muito pouco geométrico, aliás.

[fosse a coreografia da senhora acima mencionada e o baile dado por quem lembrou a forma das coisas e já não diríamos nada...]


tudo muito bonito!!
tanto que não nos importávamos de ter um quarto desses, com vista sobre a cidade. contudo, dispensávamos o chão... excessivamente hipnótico.

AnaMar (pseudónimo) disse...

Fixo-me no teu mundo.
E permaneço.
Os contrastes não são geométricos?
Bj

entremares disse...

A preto e branco ?
Cinzentos somos nós.